sexta-feira, 16 de abril de 2010

Desejares

O desejo percorre mil léguas, transcende qualquer universo e seus absurdos sem trégua. A olho nu, à queima roupa, à soltas ventas, beirando as vestes da lenda. Por toda fenda desorienta, tenta a pele que vibra em febre, no ponto alto da cerne. Toma pelo pescoço, ateia o corpo até o osso das partes mais amenas. O desejo sai da tocaia, da raia, da saia. A boca permissiva, se acende nesse clima de cismas. Prima pela abertura íntima da procura, onde o hálito faz hábito nos lábios que gesticula. O fogo não nega rogo nas preces imersas, prelúdio à pressa. Envolve todas as faces descobertas, consagra o enlace numa sangria desatada, por línguas veneradas. O desejo tende à soltura dos delírios, deleites, destinos supremos - sobre prisma do mais casto veneno. Preso ao pecado- entre lençóis libertos- se reinaugura: sem cálice, sem culpa, sem cura. No auge das águas se movimenta e a todo grau apresenta novas formas de milagres e oferendas. O desejo destila lírico, latente, lascivo e põe qualquer breve razão ao constante perigo. Tingido de branco à deriva, todo teor faz vez ao manto da loucura que aviva. Profundas origens se camuflam no seu transparente templo, desde o tempo da inocência, que há muito – escorreu entre as pernas – e se perdeu no extremo da mais pura experiência.

(Cris de Souza)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Do tal amor

É coisa de outro mundo
Esse amor fecundo
Que tange no ventre

É coisa de outro mundo
Esse amor profundo
Que range os dentes

É lisura, é orgasmo
Quando o tal amor palpita
Nada classifica
A genuinidade dessa esfera

É fissura, é espasmo
Quando o tal amor precipita
Nada explica
A gravidade dessa fera

(Cris de Souza)