quinta-feira, 29 de julho de 2010

Dobra(dura)

(Wassily Kandinsky)


era ali
entre o rosto e o mito
que escrevia as suas cartas
com velas nos pulsos
por onde escorria
a seiva negra da solidão

o amor roubou-lhe o alfabeto
e a mão apodreceu
sobre o tecido por terminar

era ali
entre o posto e o dito
que envelhecia as suas cartas
com celas nos punhos
por onde estarrecia
a soma negra da solidão

o amor roubou-lhe o amuleto
e o chão anoiteceu
sobre o terreno por trovejar

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)

sábado, 24 de julho de 2010

Retrocesso

adversa passagem
infesto contraste

a fração subverte
vértices

avessa passagem
inconexo conchave

a feição submete
vestes

entremeio descuido
desfigurado acesso

em reverso
desalinho

entresseio desnudo
desarticulado excesso

em regresso
descaminho


(Cris de Souza)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Impresso

incansáveis marcas
desenhos de memórias

sobre a pele
máscaras

subcutâneas
não se apaga

infindáveis marcas
engenhos de retóricas

sobre a pele
máximas

subterrâneas
não se afaga

o que finca não degela
endurece as mágoas

o que trinca não debela
envelhece as palmas

(Cris de Souza & Lara Amaral)

domingo, 11 de julho de 2010

Contorsão

Torço a língua
Pra desmedir as palavras
Enquanto os verbetes
Sobejam intervalos

Dublando o impuro
O traço obscuro
Troveja na fossa

E traz veia exposta
Dentro da mordaça
Rasgando embaraços
Nos ínfimos bagos

Torço a língua
Pra despedir as palavras
Enquanto os falsetes
Solfejam abalos

Driblando o apuro
O trago escuro
Traceja na bossa

E faz vista grossa
Dentro da vidraça
Rangendo estilhaços
Nos íntimos cacos

(Cris de Souza)