sábado, 13 de agosto de 2011

O adeus é ateu?

 (um poema bestificado)



Parto pela porta
- Porta que embaçastes
Como se fosses
Tu que me abominasses
Com o toque das mãos?


Sem situar a omissão,
Suspeito da lente
Encardida:


Vejo vozes sacudidas
Vaiando por trás do andar
Da despedida


Parto pela porta
- Porta que excomungastes
Como se fosses
Tu que me abandonasses
Com o terço nas mãos?


Sem saber a oração,
Suspeito da frente
Espremida:


Vejo vozes suicidas
Vivendo por trás do altar 
Da  despedida



(Cris de Souza)


(Elis Regina, atrás da porta)

sábado, 6 de agosto de 2011

Trilogia a duas mãos

 (Willian Blacke)

I.

as tuas cicatrizes
ainda me soletram o corpo
neste colapso virgem de violinos

o contacto com as sombras
atira-me o olhar sobre a janela
em trilhos de lírios azuis
que a treva silencia

as tuas cicatrizes
ainda me sofismam o corpo
neste contralto virgem de violinos    

o correlato com as sombras   
atina-me o olhar sobre a janela
em  ladrilhos de lírios azuis
que a treva sentencia


II.

do outro lado de mim
há canteiros secos
vozes mortas
copos e lábios inebriados
como índicos sem oriente

tudo é refluxo de vento
sem tempo e alento

do outro lado de mim
há candeeiros cegos
vozes tortas
copos e lábios incendiados
como imagens  sem oriente

tudo é rajada de vento     
sem templo e acento


III.

no fundo de rostos inexistentes
deponho as pálpebras
sem medo da erosão:
quero eternizar este mito
em rimas febris de cal branco

mas, mesmo em verso,
continuo sem saber
onde esconder-me

no filme de rostos inexistentes
decomponho as pálpebras
sem medo de expressão:        
quero  edificar  este mito         
em rimas ardis de sal brando

mas, mesmo em verso
continuo sem saber
onde exorcizar-me         


(Cris de Souza & Jorge Pimenta)


(Rodrigo Leão, ruínas)