quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sarau festivo



Evoé! Para festejar o aniversário do talentosíssimo marcantonio preparei esta surpresa: reuni vários escritores para tecerem  sobre " o poeta" para homenageá-lo. Muitíssimo agradeço a presença de todos os grandes envolvidos que prontamente embarcaram comigo nessa viagem- à base de muito prazer e admiração.

Um brinde especial ao aniversariante e à toda essa gente finíssima!

Cris de Souza


O HOMENAGEADO



Poeta a Tempo

O relógio parou,
um ponteiro no futuro,
outro no passado.
Nesse intervalo obscuro
de fixada hora,
estarei poeta
sempre-agora.

 (Marcantonio) 


Blogs do Marcantonio:

O Azul Temporário - o azul temporário
Diário Extrovertido - diário extrovertido
Cadernos de Arte - cadernos de arte


AS HOMENAGENS




Sangue Azul

Óh, dom poeta! a eras-
Escapa um riso cego
Dos meus perdidos versos
Pela visão das léguas
Do teu pergaminho azulado


De forma não temporária
Que também o consagro:
- Vinde os candelabros!


Tudo(o mais) é puro emblema
Tanto destino - emblema puro
Quanto no marco do poema


(Cris de Souza)



O Poeta

1.      O poeta olha no espelho
e vê o outro.

O poema nasce da solidão
mas o poeta nunca está só:
é sempre multidão.

2.      O poeta carrega na cabeça
a pedra do meio do caminho

embriagado com o vinho
da poesia.



Marco infinito

O poeta se encarrega do toque
final na tela do poema
é o ponto cego que se abre
no infinito de azuis e de claves
sinto seu sussurrar como um gemido
um despertar temporariamente extrovertido
o que percorre a sua pena em um silvo
desenha em meu olhar um infinito



Neoprometeu

tens as veias a incandescer nas quatro estações do homem:
toda a garganta se serve com espinhos
mas a tua guarda o travo do mel
algures entre a saliva e o sangue
como se todas as coisas ditas [todas]
sintetizassem a voz dos que perderam o tom.

aprendi que nenhuma palavra tua muda
e até a gramática é candeia acesa ao meio-dia.
afinal, a tua boca, por cima de nós, estremece ao ritmo do fogo.



Esboço de um sorriso a carvão

se é a sombra que espreita ao fundo do quarto
busca o estilete afiado para moldares a carne,
algures na tua mala escondem-se as tintas, os pigmentos
com que preenches os vazios que nos rodeiam
entre o oceano, azul, negro, algures entre gigantes com dedos de água
repousam aqueles que os ousaram desafiar,
as tuas palavras, poeta, navegam pelas cavidades dos seus corpos
e chegam ate nós, de pés na areia, a ferver
hoje adormeço com a cor das tuas palavras



Em três superfícies

Marco com pincel:
caderno-sumário
de plásticas artes.

Marco nesse céu
— azul temporário —
versos estandartes.

Marco no papel:
extrovertido diário
lido até por marte.



Olhos embriagados

O verso do poeta dá medo.
Eu não sabia.
Eu apenas pressentia
Sob a orgia de palavras.
O papel impávido
E as sílabas desvairadas
Desnomeando coisas.

O verso do poeta inquieta
Eu já sentia.
Desmonta a rocha
Em partículas etéreas
E uma poeira de estrelas
Redesenha caminhos.

O verso do poeta abre a porta
Para o mundo dos objetos pensantes
Onde os livros da estante
Conspiram contra as novas poesias.

Embriaga
A embriaguez dos olhos
Do poeta.

A palavra
[Liberta do seu sentido original]
Enlouquece.
E o poeta brilha....




Da Luz, Do Azul Permanente

Inventei-me até onde podia, numa parte da luz, que me guia
Temporário, na porção de nuvem solitária
Entre azul de azul, voo imaginário do primeiro momento do céu
Asa e sombra do pássaro nocturno, gémeo das adormecidas estrelas

Cadentes.
Acontece o poeta em tinta permanente onde me desperto ao contrário,
Coleccionador compulsivo dum tempo renascido por acontecido
Temporário, quase.



Têmpera

o poeta recicla as vãs filosofias
o filósofo se farta
de poesia
o artista olha tudo e transforma
em cores frias
então tudo é tragado
e triturado
pelo azul profundo e temporário


O Mago

Dentro de um ateliê o mago prepara
Suas cores em profunda alquimia
...
Os ares de lá fora, as visões interiores
Deixam-no desperto e os olhos vagam
Pelo teto, pelas rachaduras dos cantos
Pela imensidão da própria alma
...
Enquanto o mago com um olho vê uma flor no parapeito
E com outro olha para um inseto na cadeira
A sua alma ausenta-se plena do próprio vazio
Cujo milagre vem da tinta e também
Das palavras
...
O mago sorri canto de boca, embrulha sua dádiva
E distribui seu banquete a todos aqueles
Sedentos de poesia
 (eu sou um deles)
...



Marcandoido

Quando li as palavras roídas até o osso das letras,
não demorei a perceber a franqueza com que insubordinavam-se
as veias pigmentadas com o sumo de tanta ideias.
E nada disso deveria ser dito 
se a sua escrita não fosse doida,
não fosse rara e não marcasse
a minha alma de papel e de piscina
com o dom da sua poesia.



Da temporalidade

pescador de palavras
o poeta cultiva silêncios
domina o idioma visceral dos interiores
conhece os rios que navegam sistemas límbicos
e sabe da água, que sempre corre a-mar
mas volta lacrimosa chuva
nesta azul temporária vida


 
O Poeta

Pautados em becos
Ouvidos desacostumados
Ensurdeciam:
O poeta desenhava
Rostos



O Fino da Bossa

Nada há de simples no poeta
Cujo fino fio da linha onde verseja
é da mesma trama que tece a tela onde ele pinta
Nada é simples no artesão
que tem alma crivada de urgências
e de iminentes desígnios de cores e palavras
Tingida de metáforas e alinhavada de matizes
nada há de simples nesse homem.



Alquimias

Podem os versos mais que o ouro?
Seria o poeta um alquimista das emoções?
Na  ro(n)da do tempo só os eternos
Sobrevivem no abismo da poesia.
Dai  cravos ao homem e ele faz a revolução.
Oferecei palavras ao bardo
E transformará versos em poesia maior.
Assim funciona a alquimia
De um mago Marco na eterna
Busca da pedra filosofal.




Marcopoeta

Assim que é manhã
dedos doídos de verso
invertem-se a dormir,
é sossego.

Mas em pouco me sinto só
indecentemente tentado
pela malícia da palavra
sem contato.

Desperto de sofre um refrão
desorganizando a paz,
violando a luz da janela,
como Cézanne!

Repente enluarado para armas brancas

Esgrima, alfanje, cutelo ou faca
A lâmina incita o risco
Em vão verga o aço na palavra
Que a si carrega engenho e carne

Pelo fio deslizam anelos
No manejo singelo do compasso
Em que pairam os arremessos
No espaço curto e convexo do medo




De.Marcações da existência conjugada


O poeta existe na dobra palavra

Nem alegre nem triste: o verso é cada

- a unidade que separa -

O sentido do que ele escreve

 Do sentimento meu que a letra abraça.

Minhas veias são literalmente defloradas

Nenhuma peia resiste à sua navalha

De afiado Azul,

De gozo Diário,

Com ele, os quadros têm literatura precisa

E as quadras têm beleza plástica.



Diário Azul

quando o azul não tem tempo
é hora de colher as flores
que sobreviveram às ignotas
tempestades outonais

extroversão de poeta
é despetalar diariamente
a berceuse dos sonhos

(Ribeiro Pedreira)


Sobre vôo 

pássaro azul 
canta pelo mar
no olho do peixe

sol adentro
o canto do poeta
ilumina



A um poeta

eu vou te lendo e pouco a pouco
meus olhos verdes, beijo lento, alcançam
o azul das melancolias de picasso;

meu corpo renascentista, fremente, vai
braillando, incendiando como um poema. 




A Respeito de Poetas e Anjos

“ Imagino todos os poetas numa roda,
ciranda de índios,
em algum lugar não muito distante,
gesticulando, falando alto,
entornando bebida,
guerreando, criando a paz
e celebrando a vida. “



Diário de Bordo

Movimentam-se os barcos
rumo ao sem-fim do momento,
e à luz de eternidades
engravidam-se os pensamentos...

- Marco à vista!, -
e cada olhar é um olhar
a navegar...
o infinito mar de dentro...

(Ju Rigoni)


Vênia

como me desepelhar cega-
mente diante de alheios espelhos
me suscita sempre um luzeiro inédito

como o avesso rompe a pele temporária
rumo à poesia permanente

teus poemas me ladrilham a via
(labir)íntima onde desmetrifico meus silêncios
– onde por vezes eu mesmo
me desentrelinho –

 (Wilson Torres Nanini)


Poeta de verdade
poeta amigo
– ainda mais poeta
do que tantos –
merece
todas as alegrias
deste mundo.

(Dade Amorim)



Metades

Ia morder a maçã, mas lembrou-se da mulher que se foi. Meteu-lhe, então, a faca. Bem no meio. Metades tão perfeitas que não pôde comê-las. Uma, epitáfio em versos; a outra, natureza morta.




Planejamento

Três dias de trabalho árduo, contabiliza o pintor, enquanto examina o quadro (a tinta ainda brilhando de umidade):
– Grande!... Grande porcaria!
Junta todos os pincéis sujos no pote de solvente e limpa-os, um por um, de toda a porcaria. O pensamento voa, ao encontro do quadro que planejara fazer. O corpo, sem asas, esbarra no pote e derrama-o sobre a mesa, molhando várias folhas de papel canson.
O pintor xinga a mãe do pote, interrompe a limpeza e vai dormir. Não terá sonhos. Mas amanhã poderá ler, já seco, o longo e bem-sucedido poema que ainda nem sabe que escreveu no papel de desenho.




“ Desconfio que a arte esteja sempre tensionada com a vida como um desejo de colocá-la em suspensão ” – com essas palavras, meu amigo poeta/filósofo Marcantonio genialmente define o modus-operandi e a função de toda arte: balão sobrepujando toda resistência, ‘eu passarinho’ (Quintana) sobre mundos e vidas que passarão. 




Agradecimentos especiais: Tuca Zamagna (montagem), Rossana Masieiro (vídeo), Luiza Maciel Nogueira (desenho) e Tonho Oliveira (arte).

 * Entrevista imperdível com o marcantonio no roxo-violeta, para ler clique aqui. 


ACORDE*

No dia dos meus anos
não havia céu nublado,
E tive a sensação de que os pássaros
Cantavam para mim.

Era manhã inédita
Em que não me perguntava

Por que?
Para quê?
Por quanto tempo?

O canto daqueles pássaros
Me sagrava pássaro
Enfim.

*(Este poema é dedicado à Cris de Souza e aos poetas amigos que ela reuniu em uma homenagem  que me emocionou profundamente. Foi um dia de aniversário com sensações inéditas, surpresa de me perceber querido além da conta. Não há palavras ou poema que possa agradecer por isso, e este é apenas uma tentativa aquém no intuito de fazê-lo. Aproveito para agradecer a todos que me enviaram mensagens de felicitações!)