terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sentires

Sinto que me provoca, com sua lábia me enrosca nas tocaias da encosta. Numa maresia que faz a vista embarcar, a voz se elevar no ilustre abismo - entre sussurros e suspiros- onde me atiro pra respirar. Tua prosa traz a tona a poesia, dos versos insones dos dias. Sinto que me desloca, com teus absurdos me cubro – límpida insensatez – vestindo a nudez do descuido. Inunda meu ser, salta ilha no escuro, remando meus desejos mais profundos. Beira alvoroço dos pés ao pescoço, que clamam por teu bote, teu toque, teu gosto. Sinto que me evoca, num gozo delirante, onde rezam os navegantes de lábios meliantes, sob as bênçãos dos deuses despudorados. Entre conchas benzidas por tintas inflamadas, das pérolas cobiçadas. Sinto a lira. Sinto a mira. Sinto a ira. Que me prende em tuas redes, de sedas rasgadas, deitando malícia nas cavas. Por ti, me vejo molhar e me cego a sorrir- meu íntimo netuno revira. Fio tão humano, que cruza as entranhas do oceano que me dispara. Mergulho no êxtase dos meus instintos mais primitivos, toda vez que nessas ondas te pinto. Entre o risco e o riso, gozo do estranho olhar que retoca todo esse mar que recito. Sinto saudade da água que vibra no encaixe, no cais perfaz o embarque de cada areia, cada parte, cada arte que te cabe. E nesse horizonte de surto - sem ao menos naufragar, por nós eu assino o percurso.

(Cris de Souza)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ode ao sentir


Eis o coração floreia
E o pulso arvora
Um ser no outro

Sois que o domínio
É faz de conta do pacto

Eis o coração flauteia
E o impulso aflora
Um ser do outro

Sois que o delírio
É fina flor do impacto

(Cris de Souza)






quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cederes

Cedo ao espanto que me torna por encanto. Onde brindo lua. Nua. Crua. Ao teor da inspiração que trama a exaltação. Embebe o céu dos ébrios. Propício ao sumo, aos surtos, aos vícios. Que pernoita o grau estrelar nas taças de vinhos silêncios. Cedo ao perfume suspenso que inebria aos cachos. Por frestas, transpira signos na pele em flor. Costura papoulas e lírios nos sítios – linha mística dos tragos intimistas - que afagados, sedam a carne dos afogados, embalam a viva alma num sentimento sem jaula. Que toma conta por dentro. Da terra. Do vento. Do tempo. Cedo até desvairar todo ar que dobra no peito e sobra no fundo do olhar. Até povoar o deserto, beber o universo e no ventre estrelas entornar. Território constelar dos sedentos. Dos intentos. Dos inventos. Cedo nos alagadiços terrenos, que penetram os movediços venenos.

(Cris de Souza)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Entreato


Meus dedos
Dramatizam por onde
A pausa se esconde

Meus dedos
Deslizam por onde
A causa responde

Encenam faltas subtendidas
Canalizam vírgulas abafadas
Que a mão bruta desafia

Acenam pautas subvertidas
Climatizam sílabas abaladas
Que a mão reluta desvia

(Cris de Souza)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Elementar

Não há substância
Que direcione
Quanto em nós
O amor consome

Não há substância
Que dimensione
Quando em nós
O amor tem fome

Ao sentir que devassa
Se rompe a minúcia

Ao sentir que escassa
Se corrompe a pronúncia

(Cris de Souza)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pensares


Penso em bem-te-vis pintados em versos soltos, mas que te abracem em texturas ardis, gorjeios anis das poesias violadas. Que te excitem em ondas diafánas, por cânticos ares, os quais espelham à grandeza. Penso em ti noutras correntezas, levada por brisa acarinhando a face, aninhada ao peito, bordada de borboletas, coberta de sutilezas. Que num ponto desse céu, nossas asas se retocam. Nossas águas se misturam, mesmo que por um instante, nas entrelinhas se evocam. Penso que o mistério que nos une é turquesa, matizando adiante, o lirismo enlouquente que perpetua esse instante. Numa foz, numa voz que deságua feito cachoeira, beirando delírios sem eira. Penso mais. Penso alto. Penso tanto.
Em queda livre ao teu encontro.

(Cris de Souza)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Azáfama


Na direção dos pássaros
O caminho se faz descalço

Na dimensão dos pássaros
O ninho se faz encalço

O rugido das asas
É que alça a lealdade que alheia

O sentido das asas
É que calça a liberdade que anseia

(Cris de Souza)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sei que aflora


Sei que é tristeza
Enquanto chove
A flor troveja

Sei que é tristeza
Enquanto chove
A flor lacrimeja

Pétalas cinzas
Alagam as perdas
Na matiz do redemoinho

Pétalas findas
Amargam as seivas
Na raiz do espinho

(Cris de Souza)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sem pudor


Rezam as putas? O que diz Deus, dessas horas de orações sob a luz vermelha?
Sussuras pétalas à dentro. Alastram-se intimistas, perfumes suicidas pelo ventre.
Entre as pernas, escorrem estrangeiros líquidos, gritos roucos ainda soam entre as fronhas, debaixo dos cálidos travesseiros.
Se agarram aos cabelos, de pervertidas esferas, inundando seus apelos.
Lábios de lua cheia, soltam carmins estrelares. E dança o corpo nos tapetes de areia.
Se enrosca nos braços lassos vindos do mar.
A sua benção é pecar. Lapidar.Trepidar - É deixar os dedos batucar os anéis do impuro.

(Cris de Souza & Raimundo Lonato)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Da arte explícita


Te trago com os olhos
E sinto meus lábios
Em todos seus poros

És arte primeira
Da minha loucura

Te travo com a língua
E pinto minha pele
Em todas suas tintas

És parte inteira
Da minha procura

(Cris de Souza)

sábado, 10 de outubro de 2009

Sem retrato

(do ser que não é)

Conheço o céu
Assim como o inferno
Sou íntima dos extremos

Conheço ao léu
Assim como o terreno
Sou íntima dos efêmeros

Sou do risco, sou do fundo
Mas sei corar abrigo
Meus altares são errantes

Sou do riso, sou do mundo
Mas sei chorar comigo
Meus pilares são mutantes

(Cris de Souza)

*Dedicado à Schetini*

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Do ser sem rumo

Navega entre meus risos
Um choro perdido no mar

Enverga entre meus risos
Um choro retido sem ar

Meu ser circula nesse horizonte
Onde embarco as lágrimas
Que se disfarçam na espuma

Meu ser ondula nessa fonte
Onde abarco as lástimas
Que se esgarçam na bruma

(Cris de Souza)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Por si só


Tenho lembranças
De um tempo
Que não possuo

Tenho lembranças
De um tempo
Que não situo

Ah, o que não explico
Mas atento
Só por ser-me

Ah, o que não classifico
Mas sustento
Só por caber-me

(Cris de Souza)



quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Na surdina



O silêncio me habilita
Não é meu esse delírio
E nele me burilo

A rever gestos
Que se espaçam
Nesse mundo vadio

O silêncio me habita
Não é meu esse martírio
E nele me exilo

A romper restos
Que se esgarçam
Nesse fundo vazio

(Cris de Souza)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Captura

(obra do descaso)

Desafinam clarins
Os intervalos dedilham
Notas sem rupturas

Desafiam confins
Os abalos andarilham
Rotas sem estruturas

Sinergia propaga
A frequência destoa
No preâmbulo espaço

Sinfonia divaga
A ausência ecoa
No sonâmbulo compasso

(Cris de Souza)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Jás


Basta de vista grossa
Enquanto nosso caso adoece

Basta de peso nas costas
Enquanto nosso caso aborrece

Nem pense que domina
Não cabe mais ruína
Logo o corpo se perdeu

Nem pense que determina
Não cabe mais morfina
Logo a alma já morreu

(Cris de Souza)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Na ilha



Estranho barulho
São vozes ancoradas
Secando seus sais

Por trás do que calo
Há uma multidão de ais

Tamanho marulho
São fozes abarcadas
Molhando abissais

Por trás do que falo
Há uma solidão de cais

(Cris de Souza)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Confronto


Estou prestes a debandar
Mas pra seguir em frente
Deixo um pedaço pra trás

Estou prestes a despencar
Mas pra sentir descrente
Deixo um espaço a mais

Sei lá como devo agir
Eu nunca soube me definir

Sei lá como devo partir
Eu nunca soube me despedir

(Cris de Souza)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nem " Freud " explica


Pra se livrar do embaraço
O ego desmente
Verdades iminentes

Pra se limpar do percalço
O ego defende
Mentiras inerentes

Mas o Eu se encarrega
Em desmascarar
Nos aponta toda sujeira

Mas o Eu não dá trégua
Em desarrumar
Nos desponta toda poeira

(Cris de Souza)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Negrume

A noite alonga
Os cílios
Sobre olhar estreito

Vista delonga
Estrela míngua
No céu da língua

Grito emudece
Os lírios
Sobre meu peito

(Cris de Souza)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Da pá virada



Tempo de ultrajar as barreiras
Que nós mesmos educamos

Tempo de ultrapassar as fronteiras
Que nós mesmos encerramos

Se pretende ocupar
Tudo aquilo que deparamos oco

Se pretende superar
Tudo aquilo que declaramos morto

(Cris de Souza)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A Parábola


Rejuvenesço prazeres
Pra vigorar a estranheza
Incito temores verdadeiros

Envelheço pudores
Pra violar a sutileza
Instigo rumores sorrateiros

Pelo ar da paisagem
Permito aspirar tentações subtendidas

Pelo andar da carruagem
Perigo acordar situações adormecidas

(Cris de Souza)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Andança


Hei de pisar com firmeza
Ainda que por dentro esmoreça

Hei de passar com clareza
Ainda que por dentro escureça

Antes que as coisas se desfoquem
E não haja mais retalhos
Nos desalinhos

Antes que as coisas se desloquem
E não haja mais atalhos
Nos descaminhos

(Cris de Souza)

terça-feira, 30 de junho de 2009

A Metáfora


Basta uma tenda
Pro levantar do terreno
Que se endurece por osmose

Num pedaço soturno
Lagarta se descasa

Basta uma fenda
Pro libertar do tempo
Que se enaltece metamorfose

Num espaço oportuno
Borboleta bate as asas

(Cris de Souza)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Da força da flora

Brilhante alameda
Semente acesa
Seiva aurora

Rumo verdeja
Folha flameja
Flora vigora

Giram mil sóis
Terra que planto
No cio do encanto

Pro néctar vingar
E sumo brotar
No céu do recanto

(Cris de Souza)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Haveres


Há um vazio enorme
No que preciso
E não ostento

Há um fio disforme
No que improviso
E não sustento

É sempre tão complexo
Desterrar o vão
Que só a gente entende

É sempre tão conexo
Desregrar o são
Que só a gente aprende

(Cris de Souza)

domingo, 14 de junho de 2009

Intrínseco

O segredo volta a ver
Deixa claro o profundo
Busca destreza no parto

O medo volta a crer
Deixa caro o fecundo
Brusca estranheza no ato

Mesmo que reaja sempre
Não há veia sem deixa

Mesmo que haja ventre
Não há vida sem queixa

(Cris de Souza)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Dos musgos mares


Águas vivas
Vertem ébano
Fundo inverno

Velhas ondas
Vagas tortas
Falsa encosta

Chuva estia
Vento revira
Vulto transpira

Rumo à deriva
Raia incrédula
Lágrima fria

(Cris de Souza)

domingo, 31 de maio de 2009

Só de olhar


Teu olhar é trilha
Que desloca
Meu sentido

Vista celebra
Remete meu refúgio

Teu olhar é armadilha
Que embosca
Meu destino

Vida requebra
Reflete meu prelúdio

(Cris de Souza)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Da arte do amor


O amor trama arte
Nessa abertura
Render-se faz parte da pintura

O amor flama face
Nessa moldura
Reter-se faz parte da loucura

Textura de origem ambígua
Tão tinta, quão clara

Tintura de vertigem contígua
Tão viva, quão rara

(Cris de Souza)

domingo, 17 de maio de 2009

Pulso


Como a suspeita
Cativa o que custa ?

Fluidez da idéia
Escarra anseio
No ócio implícito

Como a espreita
Criva o que pulsa ?

Solidez da veia
Encara seio
No ópio explícito

(Cris de Souza)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Do imo ecoa


Tempo que não me ouço
Estranho sopro
Sibila som agudo

Tempo que não me movo
Acanho corpo
Oscila tom desnudo

Se abafo alta nota
Amplifica grave sobra
Espio mudo grito

Se acato cisma torta
Clarifica rouca volta
Ergo surto dito

(Cris de Souza)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Das quimeras


Olhar se alarga
Penetra reinos
Aurora fantasia

Olhar se deflagra
Soletra anseios
Vigora travessia

Tablado das dormências
Ajeito passo pra te acordar

Principado das querências
Estreito laço pra te sonhar

(Cris de Souza)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Eco

Como cumprir
O tardio
Que tudo renove?

Dentro do sim
Tem mais nós
Do que supõe a dois

Como suprir
O vazio
Que nada dissolve?

Dentro do fim
Tem mais a sós
Do que impõe voz

(Cris de Souza)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sem cautela


Pelas tabelas
Diante ao perigo
Veia contrária
À razão

Vã paralela
Instinto por guerra
Formiga o destino
Na palma da mão

Faço as pazes comigo
Pra sepultar o vivo
Na cova do coração

(Cris de Souza)

segunda-feira, 30 de março de 2009

Afluência

Leito arvora
Ramo aflora
Rio às claras

Lírica nascente
Brisa afluente
Margem aurora

Límpida vertente
Água entranha
Natureza tamanha

Cais íntimo
Fonte serena
Foz de açucena

(Cris de Souza)

domingo, 22 de março de 2009

Revoada


bem-te-vis
gorjeiam livres
afloram raízes

olhos infantis
voejam anis
renascem matizes

fecundos cânticos
nas asas da íris
aos cílios dos cântaros

(Cris de Souza)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Paradoxo


Já não sei se te releio
Ou se lírica que requer
Já não sei se te enleio
Ou se onírica está de pé

Por onde se rima entrelinha
Meu verso se alinha
Há teu rastro em cada vírgula
E teu porto em cada sílaba

Por onde reticências caminha
Meu nexo se desalinha
Há teu ponto em cada janela
E teu sarro em cada célula

(Cris de Souza)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sei de cor


Desenho ladeado
Distante da lucidez

Folha cálida
Álamo bordado
No teor da tez

Dose diáfana
Ventre tilinta
Aquarela tácita

Pétala destilada
Boca cheia d’ água

(Cris de Souza)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Pleno espaço


Palmas aos céus
Quando eu pousar
Plano sem som
Pra deslizar

De asas tortas
Num fino traço
Incendiar
Estrelas vãs

Trato de lua
Por dois silêncios
Único afã
Entreolhar

(Cris de Souza)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

No próximo horizonte


Na amplitude
Deito quimeras
Pra avisinhar

Olhar errante
Ao despertar
Areia é rente

Mundo inunda
Sede estranha
O presente

Chuva periga
Atravessa
A praia
Pra secar
No mar

(Cris de Souza)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

À flor da pele


no tal cantinho
que rego as cores
cortejo os lírios
(céu dos poetas)

goteja seiva
virando os cílios
por toda terra

fértil fragrância
irei plantar
muda esperança

(Cris de Souza)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Abre aspas



Se através do essencial
O coração te relê
Preciso versos
De amor lhe tecer ?

Se através do sinal
A intenção te revê
Preciso escapar
Pra você me render ?

Parte de mim é teu esquema
A outra parte é emblema

Parte do poema é teu pedaço
A outra parte é espaço

(Cris de Souza)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Sem ode


por aqui, eu verso
lanterna queimada
dedos afundo
espreito corte
- papel reverso

por ali, eu verso
perna pesada
degredo secundo
estreito norte
- babel transverso

folha rasgada
brisa me traga
mas nem sei onde estou

escolha travada
divisa me flagra
mas nem sei quem eu sou

(Cris de Souza)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Só comigo


Então vem voar com comigo, amor !
Traz teu riso étereo, traz tua face...
Traz tua alma de pincel vibrante
Traz a mim o cântaro do teu horizonte
Encher as rimas nas cores da tua grandeza
Banhar-me na tinta que aflora
Em tua correnteza

Então vem voar comigo, amor!
Deixa tua vida, deixa tua carne...
Deixa eu ver a tua semente diamante
Deixa eu usar os teus brilhantes
Encher os versos de minha poesia oca
Iluminar-me no sol que mora
No céu da tua boca

(Cris de Souza & Ian Salvador)