sábado, 2 de outubro de 2010

Analogia

(Salvador Dali)


na antagonia
das horas
impróprias

tangia o ponteiro
polidamente
na borda

na anatomia
das horas
inóspitas

torcia o pescoço
pontualmente
na corda

em meio ao pó
marcava os olhos
no contratempo

em meio ao nó
moldava os ossos
no contrasenso


(Cris de Souza)

21 comentários:

AC disse...

Uma espécie de relógio anatómico, ou a anatomia (des)compassada...
No corpo (e na mente) vemos o passar do tempo.

Beijo :)

Zélia Guardiano disse...

Que lindo, Cris!
Um pulsar interessantíssimo!
Adorei, amiga!
Beijo.

Domingos Barroso disse...

E eu enlouqueço
(santíssima loucura)
sempre que te ouço
...

Elixir duradouro
(além da própria substância)
nas pontas das palavras.


Carinhoso beijo.

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

O tempo ressoa, tímbalo ressine, leva eleva e faz ruir...
De sentir nos ossos o contrasenso de ser mortal...
Pra alma o tempo parece não fazer sentido algum...
Não cogitamos o fim do nosso, ao nascer de cada dia...
O tempo não faz sentido pra alma, pois que ela imortal...

Belo e instigante... Tranliterações muito musicais sempre marcam teu estilo... venho pra beber poesia que é música...

Bjão, Cris! ;)

Úrsula Avner disse...

Oi querida Cris,

belo texto lírico num fluir poético admirável como sempre... Dali em seus poemas completa a riqueza da obra. Bj com carinho.

Wania disse...

Cris

Enquanto a[corda]... o corpo segue no tic-tac das horas!


Belo vai e vem de palavras, literalmente um poema pendular!

Bjs, amiga

Jorge Pimenta disse...

no tiquetaquear do verso, senti o corpo viajando pelo lado de fora do tempo, num litoral sem mar onde todas as coisas são possíveis.
um abraço, cris amiga!

Lou Vilela disse...

Sigamos, pois, o contratempo no contrasenso.

Bela construção, minha cara!

Beijos

Pólen Radioativo disse...

"na anatomia
das horas
inóspitas


torcia o pescoço
pontualmente
na corda"

O tempo... Abraçando-nos feito corda em volta do pescoço... abraço que por vezes nos sufoca... quem dera o tempo fosse mesmo uma mera convenção humana, não é mesmo Cris?
Quanto mais te leio, mais "presa" fico em teus versos, linda!!!!

Beijo Grande!

JB disse...

Num tempo sem tempo o verso marca o ritmo do pulsar do corpo, no tic tac dos enleios a que a sua poesia nos submete.

Perco-me neste tempo da poesia escrita em ponteiros de tinta lírica!

Beijinho

Lara Amaral disse...

"na anatomia
das horas
inóspitas

torcia o pescoço
pontualmente
na corda"

Se vc continuar se superando sempre, uma hora eu não vou aguentar, mergulharei de vez dentro da sua poesia? (E não é o que já faço? rs.) Queria viver só disso, ah...


Beijo.

Assis Freitas disse...

polido o verbo na mesura do verso,


beijo

tonhOliveira disse...



No TIC-TAC um TIC-TOCante...
L.............á e Cá!

:)

Marcantonio disse...

A persistência do tempo na memória das palavras.

Vemos os signos corporais da passagem do tempo como contrasensos em relação à permanência dos nossos desejos. O corpo é um calendário, a alma um viajante sem bússola que se sente ludibriado pelos espelhos naturais.

Beijo, Cris.

Machado de Carlos disse...

As horas são antagônicas mesmo; basta olhar para o relógio. Ele insiste com o som cuco que nos atordoam.
Ao passar dos tempos começamos a fugir dos espelhos, das máquinas fotográficas, que insistem em nos mostrar realidades.
Na filosofia (começo, meio e fim) a nossa preocupação é justamente com o fim. Assim que o ponteiro chega às doze badaladas, seria um bálsamo colocar um breque no ponteiro.

Lua Nova disse...

Minha linda poetiza.

Ler seus poemas é estimulante e envolvente e, é claro, terei que voltar para não perder mais nada.

A vida é quem tange os ponteiros e nós torcemos o pescoço pontualmente na corda...
Gostei demais. Um jeito de dizer as coisas fascinante e todo próprio. Parabéns.
Beijokas.
Seguindo...

Cuca disse...

Que viagem!
Em qualquer tempo, sua lira badala por dentro.

Amo todos seus gingados.
Beijos, predileta.

(Saudade)

Cuca disse...

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

(O tempo/Quintana)

Cida disse...

Ficou tão lindo e sonoro esse poema, amiga!

E por falar em relógios, acho que o meu anda descompassado... os ponteiros andam a girar acelerados...:))

Te cuida!

Beijinhos de Luz

Cid@

Albuq disse...

Perfeito os teus versos!

Valéria Sorohan disse...

As horas passaram e o suicídio aconteceu.
Foi o que eu entendi...rs

BeijooO*