quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Amigo Oculto



(Tuca Zamagna)




Evoé! Tomada pelo espírito mirabolante reuni alguns poetas  para confraternizarmos através de um  “amigo oculto” . No caso, cada qual corresponde a um heterônimo e os presentes são poemas girando em torno do tema “o circo “. Resta agora cada um tentar adivinhar quem é quem  e se revelarem  quando acharem que devem- nos comentários deixem seus palpites. Levanto um brinde aos que embarcaram nessa arte e aproveito o embalo para desejar a todos um feliz natal e um ano novo alegre e saltitante!


Cris de Souza


Participam dessa viagem : Adriana Araújo, Assis Freitas, Celso Mendes, Cris de Souza, Dani Carrara, Joelma Bittencourt, Jorge Pimenta, Lelena Terra Camargo, Luiza Maciel Nogueira,
Marcantonio, Tania Regina Contreiras, Tuca Zamagna.



Fantasia circense para vocábulos saltitantes
(para Sel Salgadinho)


De acrobacia
em acrobacia
faz-se o verso:
Ora silente,
ora colorido,
ora folguedo.
Atiro facas,
engulo fogo,
E nas labaredas
das estrofes
Encontro o
norte do poema


(Eugenio Sorel)




Palavra equilibrista
(para Fernando Farias Falta)


Pula
palavra equilibrista
estende as letras
sobre as linhas
chama os pingos
chama as vírgulas
desses verbos
sem trapézio
domadores
de ferragens
e de frases
desse circo
de ser lona
ser afeto
e ser 
sina.


(Pão de Mel)


 
Anjo Palhaço
(Para Mia Alari)

Procura um por um palhaço
Vá, procura urgentemente!

Mas não deixa pra amanhã
Pois agora é que é a hora
Amanhã já nem existe
E o que existe já foi embora

O que existe é a lembrança
Daquele sorriso largo
Daquele nariz vermelho
Daquele rosto pintado

Procura por um palhaço
Procura, procura já!

Veja o bem que te faria
Agitando as tuas asas
Recriando fantasias
Que no tempo de criança
Certamente perseguias

Quem sabe não sorririas
Quem sabe não brincarias
Quem sabe não pularias
Sem dar nem satisfação

Tivesses tu teu palhaço
Seria bem diferente
Pois um naco de alegria
Na rotina de teus dias
Tanto bem que te traria...
Um palhaço por teu anjo
Um palhaço por teu guia

(Pessoa Qualquer)


 
Grã Circo Virtuoso
(para Norma Magnani)

a

Contra a lona nublada
Do circo
Os saltos mortais do trapezista
Cortavam o ar: relâmpagos,
Raios.

Era a grande atração,
E ele tanto amava a essência
Da vida
Que mandou retirar a rede
Nos ensaios.

b

O palhaço olha pra trás
E ri.
Olha pra frente
E chora.

No presente,
é maquiagem indiferente.


c

Um dia, o malabarista,
Com fúria ensandecida,
Atirou na platéia
Seus malabares:
Cansou de ser metáfora
Da vida.

d

Ah, a contorcionista
Sedutora!

Mostrava abertamente
Possíveis funções
Lascivas
Da sua arte motora...

e

O atirador de facas
Era poeta,
E vivia um dilema:
Com olhos vendados
Como dedicar poemas?


(Fernando Farias Falta)



 
Poema para equilibrista em fio de voz
(para  Pessoa Qualquer)



ante

o
poeta
cumpre o espetáculo da vida

intrepidamente
prudente
apruma-se no tempo

ele sabe
que na corda bamba do dia
poesia é arrebatamento

se angústia o faz tremer
ele para, respira
e acerta o verso

ele sabe
que na corda bamba do dia
poesia é compasso

de ponta a ponta
no poema
sente-se em segurança

ele sabe
que na corda bamba do dia
poesia é temperança

(Aira Angelina)



O Fio
(para Helena Gato)


um canto de esquisitices
no peito da equilibrista
é abril. e o instante toca repetido.
os dentes vibram
caos de estrelas
é abril. e o instante toca repetido.
nos cílios
caleidoscópios
do respeitável público
e é abril. e o instante toca repetido.


(Norma Magnani)



Sobre a mágica incandescência da doçura
(para Pão de Mel)


A doçura é pão que se reparte e não se gasta
Foge das bocas para alimentar o silêncio e a palavra.
No cartaz de um sorriso, a luz vem assim anunciada:

- E um circo de estrelas brilhará em noite próxima
Com bailarinas azuis e eufórica orquestra de grilos
Um espetáculo incandescente encherá o céu negro
Com picadeiro forrado de amores mais-que-perfeitos.
Todas as luas surgirão como coelhos de uma cartola
De mãos dadas, em ciranda, para o show de mágica
E um vaga-lume gigante ajudará uma pequena fada
A distribuir risos pra quem deixou a alegria em casa.

(Helena Gato)



 Amor do Palhaço
(para  Aira Angellina)


Nossos olhos se encontraram
Pelo rasgão da lona
E eu era aquela
Que sob a frouxa luz do camarim
Espreitada sua  face intinerante
E buscava o exato instante
Em que o riso contrairia-se em dor.
Eu fui o amor
Do palhaço..
Amamo-nos por dois segundos
Pelas avenidas de uma lona rasgada
Tinturada com desbotados matizes.
Olhei-lhe de viés
E amei-lhe ao strip-tease
Que me revelou seu rosto.

(M. Koré)



O contorcionista
(para  M. Koré)

  
Eu serei o palhaço mais triste,
eis que foi bem assim que fui
do desconsolo mais profundo   
(ante o espelho que te pariu)
ao escárnio que não refletiste.

Já fui mágico: assei as pombas
e da cartola tirei piolhos;
engolidor de espadas, pude
mastigá-las e degluti-las –
qual elefante, à própria tromba.

Agora, que no picadeiro
Tenho a ti muito mais que a mim
Para os riscos mortais sem rede
Serei o homem- bala-perdida
A alvejar-te, meu eu verdadeiro.

E farei das tripas malabares
pra ver-te ao trapézio das nuvens
brancas como as lonas do vento
que te cobrem e me descobrem
na platéia, por não me domares.


(Frank Lentini)



 
O Circo
(para Frank Lentini)


olhaste por cima do ombro
e adivinhaste os nomes das cadeiras
na hora em que o sangue se torna mais rápido
e interrompe a linha negra que preenche o tempo.
é a hora.
esqueces a pele das palavras
e toda a vulgaridade da linguagem
sob a tela suja que sacode o orvalho
para debaixo dos pés.
música vozes aplausos
respiração suspensa,
gritos mudos,
suspiros vozeados,
aplausos
assobios
aplausos
embalados pela vida que inaugura instantes
os mesmos que esquecem
o frio da cama
o colchão sem molas
a frieza do chicote
ou a itinerância dos passos.
a ilusão
[não dessa que os poetas gastam nos seus versos,
mas da outra,
da verdadeira,
da que transforma o chão de vidros e ácido
em leite e pão],
a ilusão é sonâmbula.
são duas horas
um tempo que o relógio não contou
um tempo suspenso,
um tempo em que o mundo girou em torno das tuas mãos,
nesse erguer de pernas
naquele vómito de fogo
no salto acrobático sem rede,
por entre respiração incompletas
arremessos de risos
e disparos de gargalhadas.
São duas horas
que apagam a casa movediça
e escalam precipícios com as pontas dos dedos
enquanto a cabeça estoura entre os dentes das feras.


(Eurico Portugal)


 
Poetássaro
(para Eugenio Sorel)

 
o sorriso do palhaço
faz caminho onde a poesia mora
e as crianças riem soltas
quando dançam sob teus olhos
dançarinas atingem o brio
quando lançam cometas
em truques de mágica,
no teu verso equilibrista
em palavra contorcionista
de poema voador

(Mia Alari)



 
Res-peitável  Público
(para Eurico Portugal)


a memória emotiva
motiva  as vozes
do vernáculo:

o ser, um circo
sem  fama ;
 o seio, um palhaço
        sem dama ;        
o sonho, um espetáculo
sem trama ; 

platéia de pernas pro alto!
alto lá- um número
 por vezes a sós
há de solar

assolar a arte
do esquecimento
em  nós? 


(Sel Salgadinho)




(Chico Buarque de Hollanda/Pirueta- Os Saltimbancos Trapalhões)
 

39 comentários:

Bípede Falante disse...

Cris, que bacana que ficou :)
Isso, sim, que é circo :)
Eu tenho um primeiro palpite.
O Fernando Farias Falta tem um batida Marcantonio. Tou longe, tou perto, ou caí do trapézio? rs
beijosssssssssssss

Tania regina Contreiras disse...

A essa altura, eu estou desconhecendo até a mim própria! rs Quem sou eu aí? hehehe Estou tentando descobrir quem é quem..."Acho" que descobri dois...Só acho, mas ainda não arrisco.

Tania regina Contreiras disse...

Fernando é o Marquinho e Lelena é a Mia...parece muito óbvio, mas o Eugenio Portugal não poderia ser o português, O jorginho...ou poderia? Ou seria a Cris? Sei lá...rsrs

Bípede Falante disse...

Sorel tem uma batida Cris!!!!

Bípede Falante disse...

Helena Gato tem um quê de Tânia e um quê de Luiza!!!

Bípede Falante disse...

Tânia, acho que nesse telhado eu não sou a gata que mia rsrs

Tania regina Contreiras disse...

Bem, se a Lelena não é a Mia, estamos em acordo quanto ao Marcantonio, o Jorge e a cris? Cris é Sel Salgadinho, não é não, Cris?

Marcantonio disse...

E agora? Será que revelo se Capitu traiu ou não Bentinho? E a gente ainda acha que tem estilo! Bem, meus palpites: esse Frank Lentini tá com pinta de Tuca; Eurico Portugal deve ser o Jorge; Eugenio Sorel, deve ser o Assis; seria Helena Gato a Adriana? Pão de Mel lembra a Bípede; Norma Magnani seria a Dani? E a Cris, seria Sel Salgadinho ou Mia Alari? Mas e a Tânia, a Luiza ou o Celso?! Complicado...

Marcantonio disse...

É, a Sel Salgadinho, parece a Cris, Tânia... A Lelena é a Pão de Mel! Tenho certeza, rsrs

Cristiano Marcell disse...

Respeitável público, eis uma seleção memorável!!!

Muita paz!!!!

Tania regina Contreiras disse...

De cert, temos:
Marcantonio, como FF
Jorginho, como Eugenio Portugal
Sel Salgadinho é a Cris,
e Lelena....pão de mel? Será?

Tania regina Contreiras disse...

Descobertos:
Marquinho - FF
Jorginho - Eurico Portugal
Sel Salgadinho - Cris
Lelena - Pão de Mel...

E o resto?
Eugenio Sorel é o Assis?

Joelma Bittencourt disse...

Divertido demais, Cris!

Adorei participar,mas desisto de descobrir meu escolhido e quem me escolheu...

vou esperar.

Tania regina Contreiras disse...

Revelo-me: M.Koré! Falta saber quem me tirou, acho que foi o Tuca! rs

dani carrara disse...

ficou lindo
confesso que foi difícil escrever pra quem nem imaginava ser...e nem imagino, rsrs

Elisa T. Campos disse...

Cris
Admiro o seu trabalho.
Da melancolia saem lindos poemas.Do virtual que sigo acho que Eurico Portugal é o Jorge Pimenta.
DESEJO UM FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO.
Evoé

Celso Mendes disse...

Muito bacana, mesmo. Estilos diferentes sobre a mesma temática. Eu tô com a Tânia e mal me reconheço aí. Acho que Eurico Portugal tem toda pinta de Jorge Pimenta. A Tânia já se revelou.Eu desconfio de quem me presenteou, mas prefiro não me pronunciar ainda...

Albuq disse...

Cris, quem ganhou foi cada leitor que vem aqui, se deliciar com a magia do circo em poesia. Lindo! bjs

Jorge Pimenta disse...

cris e demais artistas e espetadores do circo da lira,
este é mesmo um palco em que cada palavra desvenda novo número e imprevisíveis atores. sabes que, no meio de tantas piruetas, malabarismos e saltos sem rede, nem eu mesmo tenho a certeza de qual o meu texto... há, uma espécie de fusão de identidades, como se estivesse um pouco de cada um de nós em cada texto; mas, não é essa, afinal, a verdade maior do circo? o espetáculo não começa e fecha num só número, numa só mão; é da mescla do chicote com a rede, a gargalhada, o fogo, os pregos, o serrote, a cartola, o coelho... que construímos todo o espetáculo: dentro e fora da lona.
iniciativa brilhante!
beijo a ti e a todos quantos aqui atuam/atuaram.
p.s. fico a aguardar as revelações derradeiras, mas boa parte das suposições já desvelaram identidades. faltam as confirmações. :)

Luiza Maciel Nogueira disse...

O meu palpite é:

Aira- Cris
Eugenio- Assis
Pão de mel- Lelena
Frank- Celso
Fernando- Marcantonio
Pessoa qualquer- Tuca
Mia- Adriana
NORMA- JOELMA

BEIJOS

Luiza Maciel Nogueira disse...

Ah e Eurico- Jorge

Runa disse...

Olá, amiga

Passei só para desejar um ótimo natal e um novo ano cheio de felicidade

Grande abraço

Runa

Assis Freitas disse...

Assis está além do eu, aquém do outro, parece claro, rs,rs,



beijos

Joelma Bittencourt disse...

Bom... já sei que Tânia me presentou e eu presenteei o Celso...

Adorei os textos, a brincadeira entre poetas que admiro muito; adorei o presente que ganhei de Tânia, um poema romanesco do estilo que gosto de ler... Gostei de montão, Tânia... Valeu pela iniciativa louvável, Cris... beijinhos carinhosos nas duas.
E aos poetas que participaram, aproveito para manifestar o prazer de ter participado com vocês desta confraternização lírica, uma honra mesmo!
Boas Festas a todos e votos de outros tantos momentos como este.

Beijinhos!

Celso Mendes disse...

Bem, agora já revelada, agradeço o belíssimo poema de Joelma Bittecourt a mim presenteado. Vou guardá-lo, como a todos aqui, mas esse é meu!!! rss (ah, e meu palpite inicial estava errado...)

Tania regina Contreiras disse...

Joelma, adorei saber que foi a você que direcionei meus versos! rs Também curti muito a brincadeira, fiquei tontinha sem saber, inicialmente, quem era quem, mas ainda não sei de muitos. Sei da Joelma, Do Marquinho, Do Assis, do Jorginho...E os outros? :-) Nem sei de quem ganhei os versos, mas acho que foi do Tuca, será que acertei? Parabéns, Cris, a ideia foi muito bacana e me diverti muito! Beijos

dani carrara disse...

fiquei feliz com o presente que ganhei,
os versos do Marcantonio. (um abraço e um beijo)

e feliz de conhecer gente nova, a adriana e o celso, que comecei a seguir os blogs agora.

ainda não descobri pra quem escrevi
pra dar um abraço também

e um beijo

Assis Freitas disse...

obrigado Luiza pelo poema, ficou bárbaro, um pássaro bárbaro


beijos

Bípede Falante disse...

Cris, criaturinha doida, cadê a lista oficial do quem é quem? Eu tou boiando nesse céu de circo :)
beijosssssssssssss
Helena, minha Helena, quem é você, que me presenteou com a doçura que preciso nesses dias meio amargos?

Tuca Zamagna disse...

Tânia,
Como você pode achar que quem te presenteou fui eu se você não sabe quem sou eu nesse circo?
Isso tá com cheiro de entregação...

Beijos, abraços e boa páscoa a todos!

Tania regina Contreiras disse...

Ah, então foi vc mesmo! :-)) Eu simplesmente adorei!!!! Li trilhões de vezes cada poema, buscando "vestígios" de estilo. Se foi realmente vc, fico muito feliz, porque meu poema me encantou!
Beijos,

Cris de Souza disse...

Eu ameiiiiii essa confraternização, me diverti horrores! Ano que vem vamos repetir a dose, com a devida antecedência pra não ficar tanta gente boa de fora.

Eugênio, gênio das letras, adorei teu canto “soriano”.

Eurico, português precioso, cantar pra ti é honra.

Beijo a todos!

Observaçãozinha: desculpe o sumiço, esses dias festivos tem sido uma correria.

Cris de Souza disse...

Atendendo a pedidos, eis o gabarito:

Marcantonio- Fernando Farias Falta
Celso Mendes- Pessoa Qualquer
Dani Carrara- Norma Magnani
Joelma Bittencourt- Aira Angelina
Assis Freitas- Eugenio Sorel
Tania Regina Contreiras – M. Koré
Luiza Maciel Nogueira – Mia Alari
Lelena Terra Camargo – Pão de Mel
Tuca Zamagna – Frank Lentini
Adriana Araujo – Helena Gato
Cris de Souza – Sel Salgadinho
Jorge Pimenta- Eurico Portugal


Valeu moçada!!!

Jorge Pimenta disse...

um abraço a todos, poetas circenses; um abraço especial à cris, pela notável iniciativa e também por ter feito de mim parte de um público res-peitável :)

Vais disse...

Saudações!!!!!
Cris, um verdadeiro espetáculo!
é de muito admirar a criatividade e imaginação
palmas, palmas, bravos e bravos, flores e flores
PARABÉNS!!!! aos montes

beijos, moça bonita, pra você e pra todas e todos nesta bela apresentação

e um 2012 repleto

MIRZE disse...

Cris!

Imagino como deve ter sido bom!

Só de ler, valeu a pena!

Vim desejar à você menina linda, um amo movo cheio de alegria, PAZ E POESIA!

Beijos

Mirze

Tuca Zamagna disse...

Obrigado, Jorge, pelo belo poems!

A brincadeira foi divertidíssima. Bem que podíamos repetir a dose antes do próximo natal, Cris.

Que tal, por exemplo, na páscoa? Tipo Coelho da Cartola... ou Ovo Entalado!

Beijos

Adriana Karnal disse...

Cris,
muito legal a ideia.
feliz 2-12!

Luiza Maciel Nogueira disse...

eu voto em um amigo secreto de carnaval!! kkkk beijos e obrigada ao Celso e a Cris! beijos