quarta-feira, 30 de março de 2011

Coisas de Poeta

(para Domingos Barroso)

nas tecituras
dos caminhares:
o canto das formiguinhas

[as coisas
não passam
pelo  vão 
despercebidas

nas tinturas
dos calcanhares:
o colo das formiguinhas

[as coisas
não passam
pelo chão 
desmerecidas

pelas barbas do poeta:
doce escarro

pelas botas do poeta:
dado espasmo


(Cris de Souza)

sábado, 26 de março de 2011

Ins(piração)

 (much, el grito)


a tarde começou a chover
no mecanismo arcaico
da minha meteorologia.

sento-me com o livro nas mãos
à espera de que o mar ferva
na ejaculação das flores.

assim se faz a história:
falecem os homens
renascem as árvores.

que se inspire na sua seiva
todo o rubor das nossas palavras.

a tarde começou a chover
no metaforismo prosaico
da minha meteorologia.

sento-me com o lenço nas mãos
à espera de que o meio ferva
na elucidação das flores

assim se faz a memória:
enlouquecem os homens
esclarecem as árvores.

que se inspire na sua selva
todo o rumor das nossas palavras.   

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)

(vivaldi, winter I)

terça-feira, 22 de março de 2011

Meia noite e um bocado


(the beatles/blackbird)



Meia noite e um bordado:  
Um pássaro deplumado
Pelo outono inteiro

Torna expressa a clareira
Onde a neve cobre os canteiros

Meia noite e um borrado:
Um pássaro debandado 
Pela outono interno

Torna espessa a clareza 
Onde a neve cobre os ponteiros


(Cris de Souza)

quarta-feira, 2 de março de 2011

O castelo de cartas


(Catherine Alexandre)


o castelo de cartas
começa a desabar
entre a aldeia
 e os corais do mar

no fundo do jogo
  que não sei beirar  

o castelo de cartas
começa a dessecar
entre a areia
 e os cristais do mar

no final do jogo 
   que  não sei  blefar  


(Cris de Souza)