sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Extremo


Depois que o presente
Renunciar ao perdido
Que nos freqüenta

Depois que o ausente
Denunciar o passado
Que nos agüenta

É quando
Se abala a visão,
Se repele o vão...
Por recuo
Deixamos de viver

É quando
Se resvala o são,
Se impele confissão...
Por descuido
Encontramos pra perder

(Cris de Souza)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Às tontas



pra revelar
o que está
tão dentro
o que me move
o que me atento

me sinto perto
me sinto viva
me sinto vento

pra disfarçar
o que está
tão fora
o que me encolhe
o que me devora

me sinto lenta
me sinto longe
me sinto morta

(Cris de Souza)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Embriagai-vos !

para Cris de Souza e Charles Baudelaire
(o casal mais embriagado que já conheci)

a chuva marca o compasso
em que desafino a insônia
que me corrói

o tinto ardente nas veias
foge palavras que não sei

meus olhos pesam
meus olhares gritam
e sem sentido algum
meus dedos correm por aqui...

chupo a língua de Baudelaire
e me enterro entre teclas, lençóis
e versos que mendiguei

- um sol em luz de Cris-tais

(Lucas de Oliveira)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Nem eira


nas águas que navego
por ventos vacilantes
volúveis são as ondas
noite e dia escorrego
cuidado ao atravessar
a rota é o instante
sem beira é meu mar

(Cris de Souza)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Mais do mesmo


Receio desfalece por qualquer monte
Por qualquer corda pra te tramar
Na travessia do pálido me livrar
Pra te insinuar no meu hábito

Mais que bandido, mais que vontade
Na contravenção que atrai perigo
Distraindo a carne

Enleio atravessa por qualquer ponte
Por qualquer porta pra te travar
Na moradia do cálido me levar
Pra te instalar no meu hálito

Mais que valido, mais que verdade
Na condição que contrai abrigo
Destruindo a chave


(Cris de Souza)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Ensaio


sopro nas nuvens
passadas rugem
descaminha açoite
no carrossel da noite
lua cerca a caravela
cirandam estrelas

no vento sul
do canto azul
o céu atrela
na aquarela
sem norte
marulha à sorte

(Cris de Souza & André Ulle)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Palco


Piso leve na escuridão
Faz parte da contra-dança
Brincar com o medo

Piso fundo no clarão
Faz parte da outra ponta
Gingar com os dedos

Ah, sei bem que posso ultrapassar...
Por todas as barreiras
A amplitude daquilo que se altera
Está no descompasso da postura

Ah, sei nem se posso parar...
De todas as maneiras
A completude daquilo que se supera
Está a um passo da loucura

(Cris de Souza)

domingo, 11 de janeiro de 2009

Traçado

(dedicado a Ulle)

Conforto pinta
Se lê no contorno
Zelo dobrado

Absorta tinta
Se vê no esboço
Elo bordado

Benigna pintura...
Mesmo que moldes
Transborda expressão pura

Enigma figura...
Mesmo que sopres
Aborda coração púrpura

(Cris de Souza)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Retrato


posso chorar
baixinho
unir fervendo
afastar mansinho

posso gritar
desalinho
rir gemendo
derramar vinho

levantar ágil
transitar pelos
quatro elementos
pisar com os
pés suspensos

deitar frágil
transpirar entre
quatro paredes
beber da fonte
morrer de sede

(Cris de Souza)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O Beco


No que encosto
Antes estia
Em brilho cálido
Meu dia

Conduz viciado
O fluxo da estrada
Que ofega esquina

No que contorço
Depois afia
Em trilho pálido
Minha via

Reluz desviado
O pulso da morada
Que renega sina

(Cris de Souza & André Ulle)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Mar aberto



Mar alto
Caminho nivela
Ao encontro do cais
Consciência navega

Aporta vento
Mergulho na onda intimista
Por todo semblante saliva

Mar alto
Redemoinho vela
Ao confronto dos sais
Contundência trafega

Corta alento
Barulho na onda explícita
Por todo horizonte a deriva

(Cris de Souza)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Só a dois



Depois que o amor surge
A noite é pequena
Pra serenar inquietude

Enquanto breu, se faltares
Cada antro é imenso regaço
Do que oscila no vento

Depois que o amor urge
A noite é extrema
Pra clarear solicitude

Enquanto céu, se chegares
Cada recanto é intenso espaço
Do que cintila no tempo

(Cris de Souza)