terça-feira, 30 de setembro de 2008

Subversos


barulho de chuva
lá fora faz frio
dentro da voz
vento faz curva
pesa vazio

rajados espaços
pela aurora se partem
toda pedra, toda fonte
cortando entrave
no universo rebate

barulho de chuva
lá fora faz chio
dentro da foz
onda se turva
tesa fio

cavados passos
pela aurora se abrem
toda fera, toda ponte
compondo escave
no submerso resgate

(Cris de Souza)

sábado, 27 de setembro de 2008

Indiscrição




Ah, preciso te contar...
Da canção que te sugere, do deleite que lhe dedico
Da saudade que me fere, da febre dos meus sentidos
Das taças que te bebo, das taras em delírio
Ah, preciso te contar...
Das esquinas que verguei e contigo não deparei
Dos luares que te embosquei, almejando que virias
Da fresta que investi como tu me tomarias
Ah, preciso te contar...
Dos saltos do meu peito quando tu te aproximas
Do faro do meu corpo, que implica ao seu destino
Da inspiração que ao teu balanço palpita em desatino
Ah, preciso te contar...
Dos beijos que atirei no ébano ao teu encontro
Das lágrimas confessas ao mar em alvoroço
Da estrela que adornei meus caracóis pra te amar
Ah, preciso te contar...
Dos meus risos, dos choros, dos sarros, dos sinos
Posto isso só me resta, posto isso tenho pressa
Que atravesse minha voz e saliente meu calar.

(Cris de Souza)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Primeira chuva do deserto


(para Cris de Souza)


compreendo tuas palavras
como se pronunciadas
numa língua anterior
a todas as línguas, feita
de trovões, relãmpagos
e chuva
antes que o deserto
se soubesse deserto
e o sol conhecesse o céu
e o seu nome

compreendo tuas palavras
como já houvesse no céu
uma lua anterior
às metáforas da lua,
mas ávida de que se inventasse
a palavra esplendor
a palavra luar
e outras palavras em
torno da palavra amar


(Walter Valente)


terça-feira, 23 de setembro de 2008

Desordem



no abismo apalpa
pelo tato
fascínio encapa

do cismo escapa
pelo salto
domínio destaca

é haste que alta
sobra do alarde
que me queixa
sem fineza

é parte que falta
dobra da verdade
que me deixa
sem clareza

(Cris de Souza)

domingo, 21 de setembro de 2008

Prova



os emblemas,
o vício do soltar,
o jeito do despir
me mantém confessa
da tua fantasia

as cenas,
o capricho de voltar,
o prazer de sentir
me retém repleta
na tua geografia


(Cris de Souza)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Parto



fujo pra dentro de mim
pra ver se me encontro
nalgum teto seguro

fujo pra dentro do útero
pra ver se aborto
algum feto obscuro

fraturo haste na saída
pela sorte suposta
que cava na frente

expurgo a parte doída
pelo corte nas costas
que vaza do ventre

(Cris de Souza)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Noite abre


perto da noite
céu se abre
toda prosa
vem do festejo

perto da noite
véu se rasgue
roda tocha
além do ensejo

enlace poente
cor do sadio
vez que chega
alumio

mormaço nascente
flor do pavio
tez que ceda
ao cio

(Cris de Souza)

domingo, 14 de setembro de 2008

Fresta




infiltro nas estampas intensas
a denúncia do piscar
sobe nu e vestida

conflito nas tampas suspensas
a pronúncia do olhar
move chegada e partida

estimula experimentos
desafia captura na flâmula mordida

firula argumentos
afia abertura e convida pra vida

(Cris de Souza)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Fragmento


surtei de vexá pros lados
em atropelos e sobressaltos
dramáticos

sustei de vaiar meus laudos
em apelos e descompassos
bombásticos

nas intervenções permissivas
ofender falta rebaixa
no submerso anelo

das dimensões pervertidas
defender alta se encaixa
no inverso paralelo


(Cris de Souza)

Atrevimento


Não acredito em meus medos
Nem crio mais pesadelos
Que me fazem perder

Não acredito em meus debates
Nem crio mais impasses
Que me fazem reter

Sou inteira em cada envolvimento
Saltando buracos ao relento
Com vínculo ao clarear

Sou certeira em cada movimento
Cortando as curvas do vento
Com ímpeto ao voar


(Cris de Souza & Cáh Morandi)

Rabisco



cara de nanquim
pincel reverso
borrão em mim

(Cris de Souza)

Relevo




torrentes matinais
silêncio afogam
flutuam ais

(Cris de Souza)


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Obra




qualquer motivo que transfira
o arroubo que tira do eixo
por dentro exercita e repele

qualquer efusivo que transpira
o estorvo que revira ao avesso
por dentro precipita e expele

pelos autos avança, teor escorre
depois a essência estanca e se dissolve

pelos arreios trança, dissipa sem freio
depois do ateio levanta e se parte ao meio


(Cris de Souza)

domingo, 7 de setembro de 2008

Pólvora



tiro
poroso
estilhaça
tino com
gozo

(Cris de Souza)

Os mascarados



na passarela
da poesia
metáfora
é alegoria

(Cris de Souza)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Convite



que tal um cadinho
infesto de riso,
de colo e vinho ?

que tal um cantinho
liberto de viço,
de solo juntinho ?

vem, meu dengo...
sem nada dizer,
te dou meu abraço

vem, meu nego...
sem mais, nem porque,
te deixo meu rastro


(Cris de Souza)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

De lua




lua roça
estrelas destilam
esteio pela rota
do rugido

lua destroça
fagulhas compilam
gorjeio pela encosta
do perdido

trovão surpreende
porões da alma
esmiúça sentidos rivais
e nada destina calma

visão suspende
bordões da escusa
soluça instintos leais
e tudo que pressa conduza


(Cris de Souza)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Setembro tarda




manhã de setembro
dentro algo muda
no jardim suspenso
o botão da prosa
flora poesia
cor-de-rosa

o tempo tarda
por fora desnuda
a praia calma
a onda do verso
quebrando muda
ao vento adverso

manhã de setembro
dentro algo surta
no relógio dos confins
o refrão da retina
seduz os ponteiros
dos bem-te-vis

o tempo tarda
por dentro anula
as fugas da alma
o real absurdo
máscaras ocultas
um grito mudo

(Cris de Souza & Cáh Morandi)