domingo, 30 de novembro de 2008

Perigo


Não creio
No que enxergo
Mas naquilo que disfarço

Não creio
No que albergo
Mas naquilo que esgarço

Busco o que omiti
Daquilo que ouvi
Nalgum andar que nem gritei

Busco o que denegri
Daquilo que perdi
Nalgum lugar que nem deixei


(Cris de Souza)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Contraponto


pra que argumento
se o pensamento
é vertiginoso inseto?

inconsciente à vontade
ora voa tão baixo,
noutra voa tão alto
no contratempo

pra que cabimento
se a vida
é misterioso invento?

inerente à verdade
ora soa tão ávida,
noutra soa tão válida
no contrasenso

(Cris de Souza)

sábado, 22 de novembro de 2008

Aquela canção


ritmo desnudo
da harmonia intimista
afaga nota exaltada

vínculo agudo
da fantasia explícita
deflagra rota esmerada

ensaio que balança
sem despir essência
veste e gorjeia emoção

raio de lembrança
sem pedir licença
aquece e golpeia coração

qualquer agudo é chave
qualquer palavra é grave
quando ouço aquela canção

(Cris de Souza)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Entretanto


tudo é instinto
depois espanto
na retina
daquele canto

nada é afinco
depois demora
na ruína
daquela hora

quanto surto...
vermelho remexe
dormência
na clave da espora

tanto vulto...
espelho reflete
carência
na face do agora

(Cris de Souza)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Cris de Lua


às vezes
deserta,
noutras
cheia rua

às vezes
coberta,
noutras
veia nua

entre postes
das esquinas
passageiras
Cris faz a beira

entre cortes
das sinas
aventureiras
Cris jás sem eira

(Cris de Souza)

domingo, 16 de novembro de 2008


coração
esmola
o que
mente
amola

(Cris de Souza)

sábado, 15 de novembro de 2008

Ciclo


Perco-me
Pelos dias
Entre coisas vivas
Que não são minhas

Meu notar difuso
É pedaço demente
Da fuga externa
Que mata o banal

Encontro-me
Pela sangria
Entre coisas mortas
Que são visinhas

Meu lugar confuso
É espaço saliente
Da ruga interna
Que nasce no umbral

(Cris de Souza)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O cerco


por que será
que quando te vejo
coração vai na boca
e convida pra um beijo ?

por que será
que quando te vigio
arrepia meu corpo
e palpita o vadio ?

se avanço
giro na clareza
desse rendido movimento
que me arrasta no tempo
e te envolvo

se descanso
reviro no mistério
desse bandido sentimento
que me assalta por dentro
e te encontro

(Cris de Souza)

Que me leve



Mas era isso, e ninguém sabia
Que eu te queria, eu tinha um silêncio
Mas era isso, e era uma vida
Que eu te daria por um pensamento

Mas era risco, e alguém havia
Que eu te cabia, eu tinha um corte
Mas era risco, e era uma via
Que eu te percorria por uma sorte

Me fez uma pequena maravilha
Me ilumina, eu viro estrela matutina
Que ainda de dia não para de brilhar

Me fez uma grande ventania
Me fascina, eu reviro madrugada
Que ainda calada não para de vibrar

(Cris de Souza & Cáh Morandi)

sábado, 8 de novembro de 2008

Admirável



como pode
com seus trejeitos
ser feroz e afável ?

como pode
com seus efeitos
ser foz e inflável ?

vento incerto
que me embala
da calma a loucura
em intensa aventura

mar aberto
que me ampara
do raso ao profundo
em imensos segundos

(Cris de Souza)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Labirinto


pra sorte
fender conto
no qual
me desmonto
basta chegar,
ofertar seu abrigo
basta olhar,
tocar meu umbigo
basta querer,
tomar meu sentido
me calar
e se valer
me rolar
e se meter
me encontrar
e se perder
por instinto
no labirinto

(Cris de Souza)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Outros fragmentos


algumas palavras
encontram a gente
outras afastam
sem parar

algumas coisas
mudam de repente
outras insistem
no lugar

na alta do espaço
palavras que ficam
adormecem encima
da reles em queda

na baixa do laço
coisas que partem
acordam embaixo
da pele em seda

(Cris de Souza)