domingo, 31 de agosto de 2008

Urgente




gestos revivo
em meio ao corredor
que deriva da ausência
tão presente na dor

credos reviro
despencar é indício
da reza mundana
rente ao precipício

nó no peito
bendiz como te rasga ?
pó no feito
cicatriz como te apaga ?

(Cris de Souza)

sábado, 30 de agosto de 2008

Verbocracia




palavra
tem liderança
na política
da lírica aliança

(Cris de Souza)



filho
em perigo
desespera
até umbigo

(Cris de Souza)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008



no céu
da viva
conjuntura
tua face
é luminura

(Cris de Souza)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Revés



vou pegar um vôo
antes que seja tarde demais
eu vou, não volto
nem por céu, nem no cais

vou até os astros
antes que entardeça horizonte
eu vou, sem rastro
bem de fronte, bem na fonte

vou sem hora, sem demora
aventurar em outros ares
que aqui não mais posso ficar
no ansiar por novos mares

vou sem rota, sem derrota
procurar outra parte de mim
que não sei onde perdi
no começo ou perto do fim

(Cris de Souza & Cáh Morandi)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Intimidade




dentro de mim há uma estranha
abafa maquiagem, passa batom
afaga na areia, intruja no asfalto
salta muro, tem medo do escuro

dentro de mim há uma estranha
disfarça silêncio, abraça som
divaga descalça, usa salto alto
esmalta apuro, tem porto seguro

insegura, tão pueril...
faz pirraça, dá cambalhota
limpa poeira, reluz gargalhada
e riso vaza

loucura, tão vil...
desfaz vidraça, tropeça na rota
fala besteira, seduz bordoada
e chora em casa

(Cris de Souza)

domingo, 24 de agosto de 2008

Socorro





carecia
por desertar do modo
da tilinta obstrução
que castigava dorso assaz
sufocava respiração

padecia
por desabar o todo
da tinta perturbação
que vomitava em sua paz
arruinava sua feição

pungia qualquer iguaria,
qualquer experimento
que devolvesse à vida
sarau de emoção

urgia qualquer anestesia,
qualquer unguento
que tragasse a ferida
da mortal solidão


(Cris de Souza)

sábado, 23 de agosto de 2008

Pecado




cadência azucrina, razão cega...
gestos retorcem, suspendem palavras
indecência alucina, emoção rega...
veias entorpecem, defendem lavas

se olhar é falar
o torpor abençoado de vertigem destina
se amar é desatinar
o pulsar endiabrado é de origem divina


(Cris de Souza)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A cotovia



cantoria era enleio
pairava espanto, respirava bruma
prelúdio nas dores antigas

acrobacia era gorjeio
pintava acalanto, inspirava pluma
refúgio nas cores ambíguas

que melodia...
embora sol havia
por dentro neve cortava o sombrio

que ironia...
outrora leve cotovia
por dentro febre pesava o vazio


(Cris de Souza)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Cócegas




ás vezes o riso é ínfimo, sereno
noutras madruga voraz
ás vezes o riso é íntimo, obsceno
noutras fuga audaz
todos vertem de tu e instiga
meu espírito que os abriga
face gargalha pra lá e pra cá
declara o que não dá pra ocultar :
és culpado pelos meus risos
dos breves aos longos...
dos externos aos incisos...
e de todos o mais deleitoso
é aquele que se despe de gozo

(Cris de Souza)

.

por
todo afã
pecado
é imã

(Cris de Souza)

.


na
malandragem
perdas e danos
conduz bagagem

(Cris de Souza)

.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Indizível




de qual
lírio roubaste
teu perfume ?

de qual
delírio floraste
teu lume ?

ah, quanta graça...
retrato entorpece, tapeia o cérebro
quanto cismo, frente em euforia se sabe

ah, quanta arruaça...
contato engrandece, ateia o ébano
tanto lirismo, rente a poesia nem cabe


(Cris de Souza)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Maktub






deduz, se me notas...
delibera as mais vivas heresias
induz, se me tocas...
vocifera as mais furtivas fantasias

seu notar é indício para meu alívio
seu tocar é precipício para meu convívio


(Cris de Souza)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008





(por Lugullar)


quimeras, querenças,
quentes quartas de final
que fazeres a queima roupa
quesitos, quadriculando os gestos,
quebrando barreiras
quando de você se faz sabores
qual devaneios e esperas
questionável tempo...
um quinhão do seu corpo
e esse quintal refloresce
quinta-essência do quociente ato

Há risco



me reparo
se encaro medo
há um risco
entre o chão e o abismo

me aparo
se declaro segredo
há uma ponte
entre o vão e o horizonte

passos incautos
tombado de sobressaltos
na borda do tempo
avanço na surpresa

passos escassos
tomados de assalto
na asa do vento
disparo na incerteza

(Cris de Souza & Felipe Rey)

sábado, 9 de agosto de 2008

Relicário




reconheço cada bocado
nessa história
favoreço cada trocado
dessa memória
desejo que pelo meio afia
arejo que pelo seio chefia
tantos instantes denunciados...
quantos excitantes doados...
posso me render no escuro
teu corpo é território seguro

(Cris de Souza)

Desabafo



Encara. Não dá bobeira.
Na balbúrdia, dispõe-se
a trespassar arames do
tapume que teus ais farejam.
Liberta. Não dá bobeira.
Das conjunturas que
te corrompe, suspende
enferrujada poeira e limpa toda
mácula no temporal da arruaça.
Se banha e se refaça.
Ousa. Não dá bobeira.
Mais que tolo esse pranto
que medra quando tino escurece,
pela atmosfera enrubesce,
na indescência
da veia que absorve.
Recusa. Não dá bobeira.
Estanca essa mágoa.
Observa o céu, incita e exalta o passo.
Ultrapassa a moita, arranca esse laço.
Reaja. Não dá bobeira.
Desvia do aterro,
Antes que a ponte caia ou
não haja mais tempo para
tu por ela passar.

(Cris de Souza)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cartaz




aviso
que de
improviso
moinho
tritura
juízo

(Cris de Souza)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Alquimia




ser-te lareira
nas rimas primeiras
das melodias claras

ser-te inteira
nas tochas derradeiras
das poesias raras

sem eira, nem beira...
entre hábito e essência
ser-te arte

sem vedo, nem medo...
entre hálito e eloquência
ser-te parte

(Cris de Souza)

domingo, 3 de agosto de 2008

Confidência





será que ele crê
que seu olhar é desvio celeste
na alma atua como o céu dos luares ?

será que ele vê
que seu gosto de leste a oeste
na pele tatua como sal dos mares ?

só nos olhos teus, miro a ponte das malícias...
só nos lábios teus, reviro a fonte das delícias...


(Cris de Souza)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Espetáculo




verbo acena
rima acende
poema encena

(Cris de Souza)